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O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO DAS SOPAS

A você, meu caro semelhante, uma benção divina e um pouco mais de algo que não posso mais te dar. Sou justo homem, não nego nada, sou a ajuda em vida, mas já são três repetições e ainda faltam mais de duzentas pessoas.

Tome aqui, vai, mais uma concha de sopa quente, um pedaço de pão e esse meio litro de suco de laranja. Sente-se ali e volte a se alimentar, pois daqui vou fazer de tudo pelos que ainda faltam.

Não olhe para mim desse jeito, pois vou me perder entre a reza interna e dó estimada. Existem quatrocentos olhos em meio aos seus e a esse véu noturno de fome e miséria.

Nos três primeiros anos os via como indiferentes, apenas os acalentava pela transmutação de uma alma em comando natural, em uma ajuda irreal contra aquilo que me apertava muito e também. Mas, depois de todo esse tempo, meu tempero primitivo, meia dúzia de ajudas populares e o descarrego de uma bendita mística de sexta-feira, posso dizer que a comida e o que faço são a salvação diária nessa que é uma continuidade ingrata da vida.

Coloque no prato o pão, meu senhor! O álcool deixe-o para a sobremesa, na benção indigesta de sua realidade.

Do meu lado sempre há a Rosa e gente feliz. Pessoas que comigo escolheram alimentar pessoas no lugar de perderem-se na igualdade dos quase semelhantes. Nada fácil, tudo muito justificado por todos, isso porque, aliás, somos a onda perturbadora do advento dos humanos.

Como meu dia é de sacrifícios, pelo amor de Deus! Por sorte flutuo em metafísicas cumpridas. É uma força que navega em meu corpo, sacode o ideário de dias perfeitos e desemboca nessas madrugadas seguidas, nos dias trabalhados, em manhãs mal nascidas.

Aliás, todo dia se nasce mal e bem. Dou de comer a dois filhos meus e, diretamente de um barraco que o vento levou, a mais dois. De tanto rezar para que a comida apareça, meus dedos já não mais escolhem a figa como solução. Batem na porta da correria, do trabalho, todos os dias, no evangelho segundo o meu nome que, em vão, vai nos mais variados atalhos a procura desse futuro promissor que sirvo, nesse exato momento.

Dessas bocas famintas saem palavras de encanto.

De barrigas cheias, uns de vermes outros de pão, corro na contramão de um destino sem escolha para esses seres. Vou mesmo porque precisa-se ir, precisa-se vir, precisa-se de palavras, aliás, de tudo. Hoje seria ideal mais batatas com aquela cenoura vermelha de costume.

Para quem não sabe da minha caminhança, durante todo o dia mastigo um pedaço de borracha, de sabor esquecido, pondo em pé um castelo para impurezas, abrigos de ambiciosos, esconderijos de gente tetânica. Uma permuta mútua, pois me arrancam a igualdade, quando de fim de mês, ao mesmo momento que produzo meus melhores sonhos, que sempre chegam em horas escuras dessa luta de sol a sol.

De minhas mãos calejadas e dos dedos cortados, fujo no primeiro toque de liberdade, chegando já feliz no anseio do seio de uma família a sorrir. Rosa, Romeu e Flora Bola são os que mais me motivam, os que cortam os ingredientes, os que me empurram na tal mística pesada de sexta-feira. Que sabor especial.

Você, por ser a última nessa fila imensa, terás tudo o que sobrou. Mas não só comida, terás um abraço acalentado de futuro e a acolhida presente nas palavras de um homem, que retém qualquer imensidão de despedida e tristeza. Sente-se aqui, prefira só hoje associar sua vida de delírios e dor a mim. Sinto que hoje não só de sopa sua vida se encheu. Não se assuste com meus olhos fechados, pois eles estão imersos em uma água pura que homens como possui.

Está feliz, isso ajuda.

São três atos que tornaram fáceis viver desse jeito. Primeiro, um brilho enfurecido que desceu do céu, segundo: dois gatos que se cruzaram em noite de encruzilhada e mística forte e, terceiro, as 42 duas velas acesas para os mais variados tipos de Santos. Vivo esses momentos ao longo de oito anos, quatro meses e uma eternidade de noites de sopas.

No último ano passei a construir soluções para outras vidas quaisquer. Sou o retrato falado do que não se vê entre as pessoas, entre suspiros e respiros ofegantes.

Rafael Silvestre é jornalista com formação também em Letras. Desenvolve aulas de cidadania no extremo sul de São Paulo, no Grajaú.

A poesia nasceu em sua vida, a transformando completamente. Escreve todo sábado neste espaço. contato: rafael_jornalismo@hotmail.com

facebook.com/rafael.silvestre.71

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